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Disbiose intestinal e mecanismos relacionados à DHGNA


A disbiose intestinal ocorre quando a homeostase das bactérias intestinais é perturbada, ou seja, é caracterizada por alterações na composição, função e distribuição dos microrganismos no intestino, resultando em um estado que predispõe o surgimento de condições patogênicas intestinais ou até mesmo em outros sistemas orgânicos, como o fígado. A dieta é um dos principais fatores diretamente associados ao desenvolvimento de disbiose, podendo levar a complicações hepáticas - mas indivíduos com obesidade costumam apresentar uma microbiota intestinal que predispõe o aparecimento de esteatose mesmo sem presença de fatores dietéticos inadequados. (Safari & Gérard, 2019; Duarte, et. al, 2019)


Em um ambiente intestinal com presença de disbiose, existem alguns mecanismos específicos que estão relacionados ao surgimento da doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA).


Entre eles está uma alteração no metabolismo energético: dependendo da composição dos microrganismos presentes, acontece uma maior absorção de monossacarídeos (monômeros formadores de carboidratos), acelerando a síntese de ácidos graxos a partir do processo de lipogênese de novo, no qual o excesso de carboidratos absorvido é convertido a moléculas lipídicas (que são então estocadas no tecido adiposo). Além disso, a microbiota pode contribuir para supressão de uma molécula chamada fator adipocitário induzido por jejum ( FIAF, do inglês fasting-induced adipocyte factor), aumentando o acúmulo de triglicerídeos no adipócito, potencializando o ganho de peso, fator de risco para DHGNA. Ainda a respeito da alteração no metabolismo energético provocada pela microbiota, uma maior abundância de Firmicutes em detrimento de Bacteroidetes, observado em pacientes com obesidade e disbiose, aumenta a absorção de energia a partir da dieta, também incrementando o ganho de peso. (He, et. al, 2016)


O aumento da permeabilidade intestinal, com perda/enfraquecimento das tight junctions, é outra consequência da disbiose, que aumenta a translocação de bactérias e toxinas para a corrente sanguínea. O quadro de endotoxemia resultante também afeta a secreção de FIAF, promove aumento da lipogênese de novo e ativa cascatas inflamatórias, que atuam de maneira significativa na progressão das doenças hepáticas. (Duarte, et. al, 2019; He, et. al, 2016)


A alteração no metabolismo de alguns componentes também está relacionada ao surgimento e progressão da DHGNA. É o caso, por exemplo, do etanol. Bactérias como Escherichia coli, quando expostas a níveis elevados de açúcar refinado, aumentam os níveis de etanol no sangue. Esse composto, além do efeito tóxico direito no fígado, também altera a permeabilidade intestinal e se associa com quadros de SIBO, aumentando a passagem de endotoxinas para a corrente sanguínea e a produção de radicais livres, que estimulam inflamação hepática. (Duarte, et. al, 2019)


A metabolização da colina e dos ácidos biliares é fortemente influenciada pela composição da microbiota, sofrendo prejuízos no caso de disbiose, que aumentam a predisposição ao desenvolvimento e piora da DHGNA. No que diz respeito a colina, esse é um nutriente essencial para a produção da lipoproteína VLDL e transporte hepático de lipídios. Quando esse transportador é diminuído, aumenta a deposição de moléculas lipídicas no fígado, com potencialização do estresse oxidativo e aumento das citocinas inflamatórias. Uma composição indesejada da microbiota diminui os níveis de colina disponíveis quando a converte a trimetilamina, um composto que, quando chega no fígado, pode ser oxidado à TMAO, afetando o metabolismo hepático e predispondo maior acúmulo de gordura no local. (Safari & Gérard, 2019; Duarte, et. al, 2019)


Outro mecanismo da disbiose que aumenta o risco de DHGNA é a alteração no metabolismo de ácidos biliares, produzidos no fígado e que tem a função de promover a absorção de gorduras e elementos lipossolúveis no intestino. Também funcionam como moléculas sinalizadoras da homeostase de lipoproteínas e glicose. Uma vez que os ácidos biliares chegam ao intestino são modificados pela microbiota e, a depender da composição desta, o tipo de ácido biliar secundário gerado pode favorecer a ocorrência da DHGNA. (Safari & Gérard, 2019; He, et. al, 2016)


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Safari, Z., & Gérard, P. (2019). The links between the gut microbiome and non-alcoholic fatty liver disease (NAFLD). Cellular and Molecular Life Sciences. doi:10.1007/s00018-019-03011-w


He, X., Ji, G., Jia, W., & Li, H. (2016). Gut Microbiota and Nonalcoholic Fatty Liver Disease: Insights on Mechanism and Application of Metabolomics. International Journal of Molecular Sciences, 17(3), 300. doi:10.3390/ijms17030300


Duarte, S. M. B., Stefano, J. T., & Oliveira, C. P. (2019). Microbiota and nonalcoholic fatty liver disease/nonalcoholic steatohepatitis (NAFLD/NASH). Annals of Hepatology. doi:10.1016/j.aohep.2019.04.006


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