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Qual a relação da microbiota intestinal com as DII?


Devido à região anatômica na qual se manifestam, é impossível dissociar as doenças inflamatórias intestinais (DII) do microbioma intestinal. Apesar de muitos dos fatores de risco atuarem de maneira direta sobre o desenvolvimento dessas doenças, muitos deles exercem seu efeito patogênico a partir de alterações que causam na microbiota, como é o caso da alimentação, por exemplo. Um padrão alimentar mais “ocidentalizado”, com excesso de ultraprocessados, carboidratos refinados, gorduras saturadas e trans, carne vermelha e processada, e baixo nível de ingestão de fibras, gorduras insaturadas, vitaminas, minerais e fitoquímicos está fortemente associado a um perfil intestinal mais disbiótico, assim como o observado nas doenças inflamatórias intestinais.


Considerando as funções fisiológicas dos microrganismos que habitam o intestino e as mudanças observadas nestes pacientes com Doença de Crohn (DC) ou Colite Ulcerativa (COU), a relação do microbioma como parte da patogênese das DII fica clara.


Os microrganismos intestinais exercem mecanismos desde o início da vida, visto que o microbioma é um importante fator na maturação da resposta imune-inflamatória do hospedeiro. Logo, o período peri e pós-natal é crucial para a estabilização de uma microbiota que permita o desenvolvimento de uma resposta imune adequada, menos reativa. Os ciclos da vida que essas doenças tendem a manifestar (infância - início da vida adulta) demonstram como o período inicial da vida é crítico para estabelecimento de uma microbiota que possa atuar como fator protetivo contra as DII.


A microbiota dos pacientes acometidos por essas doenças é menos estável, apresenta diversidade reduzida e as espécies predominantes diferem bastante de indivíduos saudáveis. Inclusive, um dos mecanismos postulados na fisiopatologia das doenças inflamatórias intestinais inclui a predominância de espécies com características pró-inflamatórias como Escherichia coli, enquanto bactérias de perfil mais anti-inflamatórias se encontram em níveis reduzidos.


Em pacientes com DC, Lactobacillus e Bifidobacterium aparecem em menores níveis do que os encontrados em microbiotas de pessoas saudáveis. O filo Firmicutes, na ausência patológica, é um dos predominantes, contribuindo para a síntese de substratos metabolicamente ativos, como os ácidos graxos de cadeia curta, que tem atuação anti-inflamatória. Na condição patogênica das DII, esses microrganismos estão reduzidos, enquanto os do filo Proteobacteria aparecem em número expressivo.


Outra característica observada no intestino de pacientes com DII, principalmente DC, é o crescimento de bactérias na camada mais aderente de muco, que usualmente é estéril. A tendência de crescimento é principalmente de E. coli, com um fenótipo aderente e invasivo, no qual as bactérias invadem as células epiteliais e se replicam com os macrófagos, gerando disfunções em vias da imunidade inata e adaptativa, contribuindo com a patogênese dessas doenças.


F. prausnitzii, Blautia faecis, Roseburia inulinivorans, Ruminococcus torques, e Clostridium lavalense, espécies produtoras de butirato estão diminuídas na Doença de Crohn. Os menores níveis de ácidos graxos de cadeia curta observados nos pacientes com ambas DII acabam afetando a diferenciação e expansão de células Treg e o crescimento de células epiteliais, comprometendo a homeostase intestinal. A permeabilidade fica prejudicada, induzindo as respostas inflamatórias. No sentido contrário, as bactérias redutoras de sulfato estão aumentadas na DC e na COU, resultando em maior produção de hidrogênio-sulfato, responsável por causar danos às células epiteliais do intestino e induzir a inflamação da mucosa.


É por isso que a microbiota é um alvo terapêutico nesses pacientes, e a maneira de modulação depende da condição específica, da severidade e do momento da doença. Nos momentos de crise de ambas DII, não se recomenda a ingestão de fibras, para evitar exacerbação. Além disso, o uso de cepas de probióticos tem maior respaldo na literatura para utilização em pacientes com COU, em crises leves a moderadas, para induzir remissão. Os benefícios desse tipo de suplementação não são observados em pacientes com DC.


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